Vinte anos atrás, visitei a biblioteca da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. A sala de pesquisa tinha alguns computadores, funcionando no antigo sistema operacional MS-DOS. Aquele da telinha preta que oferecia apenas editor de texto e nada de gráficos… A Faculdade cadastrava na base de dados os títulos dos livros, autores e temas do acervo, para facilitar as buscas.
Antes ainda do DOS, a pesquisa escolar e acadêmica nas últimas décadas do século passado se resumia às pesadas enciclopédias. Entre as mais conhecidas estavam a Britânica e a Delta-Larousse. Quem tinha condições de comprar a série inteira gostava de exibir em casa livros de capa dura, confeccionadas em couro ou linho, e com detalhes gravados em ouro. A consultora financeira Leila Costa, de 46 anos, ganhou de presente do avô a coletânea Barsa. “Também pesquisava em biblioteca, mas eu tinha em casa uma enciclopédia Barsa, que meu avô deu, e os três filhos, nós três lá de casa, pesquisávamos por ela, também.”
Em meados da década de 1990, o Almanaque Abril, publicado pela editora de mesmo nome, também era muito popular em pesquisas. Editada desde 1974, a enciclopédia era obra de referência sobre o Brasil e o mundo. Desde então, a busca pela publicação caiu e muito: tanto que em 2015 o almanaque deixou de ser publicado.
O jornalista Álvaro Filho usava a enciclopédia Lello, editada na cidade do Porto, em Portugal. Quando precisava de imagens, fazia decalques das ilustrações com papel de seda. Álvaro lembra que não se cortava um livro. Scanner? Só em filmes de ficção. Hoje, ele considera a pesquisa do Google um recurso adicional. “Você pode até se adaptar a uma lógica digital, mas a cultura analógica continua presa, marcada no seu DNA, e assim foi comigo né… embora eu use o Google, eu use o Wikipedia, use outras ferramentas, eu me sinto confortável nas minhas pesquisas, tanto como escritor ou como jornalista, quando tenho acesso à literatura concreta em papel, com capa, com cheiro, com tinta…”
O declínio da popularidade das enciclopédias teve uma linha divisória. No Brasil, a chegada da Internet, em meados da década de 1990, inicia uma transição gradual e contínua na maneira de pesquisar em casa ou em bibliotecas. O antigo MS-DOS dá lugar ao Windows. O computador passa a ter janelas com gráficos e ícones que organizam os dados para o usuário. Em 1998, os estudantes Larry Page e Sergey Brin criam o Google. A missão da dupla? Ordenar a informação do mundo. A ideia de universalizar o conhecimento vai mais além em 2001, ano de nascimento da Wikipedia, enciclopédia digital de conteúdo colaborativo, escrita e editada de forma voluntária por pessoas de diversos países.
Segundo Alessandro Barbosa Lima, CEO da E.Life, empresa especializada em inteligência de mercado e gestão do relacionamento nas redes sociais, é mais do que positiva a transição da pesquisa do meio físico para o digital. “A informação acaba ganhando uma velocidade de atualização, muito mais rápida, o que favorece uma atualização constante. Eu acredito que as enciclopédias e os dispositivos mais tácteis, os livros, etc, eles também estão se reinventando como fonte da informação mais atualizada.”
O cineasta Martim Ardaillon Simões, de 50 anos, fez parte da geração colecionadora de enciclopédias, mas não tem saudade dessa era: “Eu prefiro pesquisar hoje em dia na Internet porque as informações são mais abrangentes e você encontra qualquer tópico, né. Os livros hoje em dia servem se você quer ouvir um certo autor sobre um certo tema. Mas, para uma pesquisa pontual, genérica, eu acho que a Internet funciona muito melhor.”
O jornal britânico Nature, primeira publicação impressa do mundo a divulgar descobertas científicas de grande impacto, comparou 42 artigos da Wikipedia e da Enciclopédia Britânica. O levantamento encontrou poucas diferenças em termos de exatidão entre as duas bases de dados.
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